Mostrando postagens com marcador Belém. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Belém. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Belém assiste ao fim das livrarias

A exemplo de outras, Jinkings anuncia que fechará suas portas

A conformação é incapaz de encobrir a tristeza de dona Isa. Ela, que passou mais da metade da vida entre pilhas de livros e leitores ávidos, revela com pesar e com naturalidade particular expressa em voz firme: a histórica livraria Jinkings, fixada há quase 45 anos no entorno da Praça Batista Campos, fechará as portas no próximo mês.

A notícia está longe de soar imprevisível, já que um anúncio de promoção permanente estampa as vitrines há tempos e o deserto que se tornou o espaço há alguns anos impede qualquer surpresa. De referência turística e ponto de encontro de intelectuais a lugar quase desabitado, a casa passa a integrar o grupo de livrarias extintas em Belém. Sentada em uma das cadeiras estampadas que rodeiam a mesinha no centro da loja, dona Isa Jinkings lamenta. “No mínimo quatro gerações se abasteceram de cultura aqui. Mas hoje as megalivrarias englobaram tudo. Temos uma história muito bonita, mas infelizmente isso não paga as contas. Sem suporte fica impossível seguir adiante”.

A verdade é que hoje quem quer comprar livros vai à internet, à farmácia, ao supermercado, à locadora. As livrarias tradicionais foram obrigadas a dar lugar à multiplicação das livrarias de shoppings. Para o jornalista Elias Pinto, colunista e crítico literário do DIÁRIO, esse é um caminho inevitável. “Já que os corredores dos shoppings são as ruas de hoje, naturalmente as livrarias se mudaram para lá”, diz.

“Belém nunca chegou a ter um número expressivo de livrarias, mas já teve algumas de qualidade, atualizadas e com um bom estoque: a Agência Vecchi, a Agência Martins, a Dom Quixote, a Livraria Maranhense, o Sebo do Dudu. Ocorre, de um lado, que as novas gerações de leitores - leitores de livros, frise-se – também escassearam, e o ramo, como vários outros, ressentiu-se da falta de segurança, e do cada vez mais tormentoso problema de estacionamento. Além disso, hoje boa parte da clientela prefere comprar pela internet. Mas se um dia tivermos um prefeito que promova a urbanização e civilização das nossas ruas, incluindo o centro histórico, as livrarias terão seu lugar nesse cenário”.

Por outro lado, o fortalecimento do mercado de edições de bolso também tem influência nesse movimento, favorecendo a onipresença do livro nas mais diversas prateleiras ao aliar qualidade a preços absolutamente aceitáveis. Os leitores comemoram.

“Bem-cuidado, com boa apresentação gráfica e traduções, em geral, de qualidade, o livro de bolso, também pelo preço e tamanho, tem conquistado novos espaços, aberto novas fronteiras, indo além das livrarias”, diz Elias.

REINVENTAR

Se Belém hoje vê a decadência de suas livrarias tradicionais, por outro lado observa a Feira Pan-Amazônica do Livro, em sua 14ª edição, se tornar um dos eventos literários mais expressivos do país - atrás apenas das Bienais do Livro de São Paulo, Rio de Janeiro e da Feira do Livro de Porto Alegre - e se consagrar como uma das maiores feiras do livro da América Latina.

O segredo? Os shows musicais, saraus, exposições e mostras de cinema são um tempero indispensável nessa receita, assegura o diretor de cultura da Secult, Carlos Henrique Gonçalves.

“As feiras conseguem ser mais que um local para a compra de livros – são um espaço criativo de encontros, ao absorver linguagens artísticas, incorporar novos formatos, oferecer uma programação cultural diversificada. Isso também é ferramenta indispensável para promover a assimilação do hábito da leitura”, acredita. No ano passado, segundo dados do Instituto Mentor, a feira reuniu mais de 500 mil pessoas.

Seguindo esse caminho, o Salão do Livro da Região do Baixo Amazonas, ação de interiorização da Feira do Livro em Santarém, encerrou a terceira edição nesta sexta alcançando um público recorde de 73 mil pessoas em sete dias, de acordo com a organização do evento. Na próxima sexta, o salão chega a Tucuruí, ostentando a satisfatória média de 180 visitantes, somando-se as três edições.

Para Gonçalves, a mesma equação, que tem na programação cultural seu ingrediente chave, deve ser aplicada ao ambiente das livrarias e bibliotecas. Para conquistar leitores, há que se repensar o papel destes espaços e apostar na versatilidade - antes que seja inevitável (e irreversível) fechar as portas.

“Vivemos um momento ímpar de democratização do acesso à informação, e isso exige que as livrarias, assim como as bibliotecas, repensem sua relação com o cliente. É necessário que se tornem espaços mais atrativos, mais dinâmicos para estimular uma relação cultural e educativa com o livro”, diz.

Para Elias Pinto, a verdade é que o livreiro de hoje precisa estar antenado, criar múltiplos canais de contato com seu público-alvo e outros públicos em potencial, buscar o leitor onde ele está, reinventar-se.

“A maioria das livrarias que restaram em Belém não tem páginas virtuais dinâmicas, interessantes, interativas. Também não explora as comunidades de relacionamento, o que seria interessante, por exemplo, para atingir adolescentes e jovens conquistados por essa saga literária juvenil de vampiros, que sucedeu ao Harry Potter e sua turma de Merlins repaginados. Como se vê, até temos novos leitores, o que não temos são novos livreiros, novo não só quanto à sucessão ou faixa etária, mas também disposto a renovar-se”.

MEMÓRIA

A historia da livraria Jinkings começa em um pequeno bangalô na rua dos Mundurucus, a própria casa da família. “Aqui era muito carente de livros, mandávamos buscar via reembolso postal - na maioria, livros didáticos mimeografados, de literatura portuguesa e brasileira. Naquela época, atuando como representantes, vendíamos para os livreiros”, conta dona Isa, relembrando sua trajetória ao lado do marido, já falecido, Raimundo Jinkings.

Em 1979, quando as pilhas de livros já dominavam quase todos os cômodos da casa, e já havia se fortalecido o vínculo com as editoras, o casal decidiu atravessar a rua e construir uma livraria tradicional na rua dos Tamois, interligada, pelo quintal, à antiga residência.

“As pessoas começaram a nos procurar com tanta ansiedade, com tanta avidez, que resolvemos entrar no varejo. Construímos a livraria usando o espaço de duas casas. Nos altos, um grande salão ao qual chamamos Espaço Cultural, era uma bagunça que as pessoas adoravam, livros espalhados por todos os cantos. A casa vivia lotada, principalmente por jovens sedentos por conhecimento depois da repressão”, conta ela.

Ruy Barata, Benedito Nunes, Machado Coelho eram presenças constantes por lá. Mais tarde, Ziraldo, Ligia Bojunga e Ruth Rocha também.


Naquela época, longe do fantasma dos juros e dos cartões de plástico, as retiradas de livros eram registradas em um velho caderninho, com nomes e valores devidamente anotados, para que o cliente pagasse quando pudesse. O negócio prosperava: houve uma época em que existia filiais no shopping, em Santarém, Castanhal, no Colégio Moderno, na Doca e até no Amapá. Com o tempo, foram fechando, uma a uma, restando apenas a matriz, na Praça Batista Campos – com seus atuais quatro andares abarrotados de livros.

“Acho que hoje temos mais de 30 mil exemplares, nem sei dizer”, pensa dona Isa, com o olhar distante. Deve haver bem mais que isso. “A partir do mês que vem, parte desses livros será vendido como papel, por peso, pra não termos que pegar e tocar fogo”, diz. Para o futuro, há planos de abrir uma nova loja, bem menor, mais modesta, apostando também em artigos de decoração e antiguidades, ali onde tudo começou: na rua dos Mundurucus. “Mas por enquanto, é essa melancolia”, encerra.

Publicado originalmente no Jornal Diário do Pará em 20/06/2010

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Biblioteca Arthur Vianna amarga o abandono

Leitura entregue às traças na maior biblioteca do Pará

Marcelo da Silva, 38, “repara” carros na travessa Rui Barbosa. Entre um trocado e outro, quando diminuiu o fluxo de veículos, ele atravessa a rua e caminha em direção ao Centur.Alguns lances de escada e pronto – Marcelo se vê em seu lugar preferido para “passar o tempo”, como ele mesmo diz: a gibiteca da Biblioteca Arthur Vianna. “Sempre venho aqui quando não tem muito carro lá fora. Gosto de matar a saudade das revistas antigas. X-Men e Novos Titãs são meus gibis favoritos”, conta.

Fernanda Cybelle, 16, é estudante do segundo ano do Colégio Paes de Carvalho e, curiosamente, comemorava seu aniversário com as amigas, sem bolo nem barulho, em uma das mesas do salão central da biblioteca. “Nós adoramos vir pra cá. Hoje fomos liberadas mais cedo e, como temos um seminário sobre Inglês de Souza, viemos adiantar a pesquisa. A biblioteca da escola não supre a nossa necessidade”.

Marcelo, Fernanda e as cinco amigas compunham um pequeno grupo de leitores que aproveitava o final da manhã da última quinta-feira na centenária biblioteca, que em seus vários ambientes, parecia desabitada. A própria gerente, Ruth Vasconcellos, reconhece: já houve dias (bem) melhores. “Há dez anos o público era bem maior,os números mostram isso”, ela diz, como se a realidade não saltasse aos olhos. “A tecnologia levou o usuário a traçar outro caminho na busca por informação. É claro que há maneiras de trazer leitores, mas fica difícil diante da nossa atual situação. Não é bonito dizer isso, mas nosso acervo está desatualizado, e isso prejudica muito o atendimento, porque se o leitor vem e não encontra o que está procurando, nãovolta mais”, pondera.

Atualização e informatização do acervo, instalação de um telecentro, modernização dos equipamentos e aquisição de maquinário e móveis novos.São muitas as necessidades desta que é a mais importante biblioteca pública de Belém, mas que, do alto de seus 139 anos, parece parada no tempo.

A situação se torna mais grave ainda quando se leva em conta que o Pará é o Estado com maior número de municípios sem bibliotecas: dos 143 municípios, 21 não possuem um local reservado para estudo e pesquisa, segundo pesquisa divulgada em abril pelo Ministério da Cultura. Em Belém, só há duas bibliotecas públicas: a Biblioteca Arthur Vianna e a Biblioteca Municipal Avertano Rocha, na orla de Icoaraci.

FALTA ESTÍMULO

Para Ruth Vasconcellos, faz-se necessária a união de esforços para resgatar a importância da biblioteca como espaço de pesquisa e busca pelo conhecimento. “Hoje o professor pede um trabalho, o aluno vai à internet, copia o que for conveniente, e pronto. O educador deve exigir as referências bibliográficas, um conteúdo consistente. Isso acaba forçando uma pesquisa mais aprofundada e levando o aluno a buscar o ambiente da biblioteca”, defende.

Para a pedagoga Luciana Moura Assad, 28, que dá aulas para turmas de 1ª à 8ª série na escola de ensino fundamental Dr.Carlos Guimarães, no bairro da Marambaia, a biblioteca ainda figura como ferramenta indispensável para o ensino, principalmente em um país onde a pobreza limita o acesso à leitura. “Para as classes mais baixas, comprar livros ainda é uma realidade muito distante. A biblioteca é uma ferramenta indispensável, um suporte para professores e alunos”, diz.

Luciana, que dá aulas pela manhã, reserva as tardes para cuidar da biblioteca recém implantada na instituição onde trabalha. Observando de perto a relação dos alunos com o espaço, ela nota que esse vínculo ainda precisa se fortificar. “Estamos fazendo um trabalho de conscientização, porque ainda não existe o hábito de freqüentar o espaço. Os alunos ainda estão aprendendo valores como o cuidado com o livro, o silêncio no ambiente da biblioteca. Estamos criando estratégias para que eles descubram o prazer da leitura, já que na família, muitas vezes, não existe esse estímulo”.

Espaço público amarga má fase, diz direção

Sem orçamento próprio – já que depende dos recursos da Fundação Cultural Tancredo Neves – a Biblioteca Arthur Vianna amarga uma má fase. O salão geral, que antes dispunha de três seguranças, agora conta com um só guarda. Também foi reduzida a quantidade de câmeras de monitoramento em cada sala: de duas para apenas uma. “São os cortes orçamentários”, diz Ruth Vasconcellos. Depois do decreto 1.618, baixado pela governadora Ana Júlia, em abril de 2009, também foi reduzido o horário de funcionamento do espaço: de 8h às 19h passou a ser de 10h às 18h. “O público reclama desse horário. Os estudantes costumavam vir cedo, pesquisar, agora já não dá mais”.

A seção de obras raras guarda relíquias como ‘Rimas Várias de Luis de Camões’, livro datado de 1689.No entanto, está alocada em um espaço sem temperatura adequada, onde se vê um velho e poeirento ar-condicionado. O setor de microfilmagem, que dispõe de apenas duas máquinas, também precisa ser modernizado.

Segundo os relatórios, a biblioteca registrou a visita de cerca de dez mil usuários no mês de maio, o que corresponde a quase 77 mil obras consultadas.Para Ruth, é um número muito abaixo do esperado, mas é também resultado de muito esforço diante da falta de recursos e de estrutura.

“A gente até fica meio triste. É uma imensidão de livros, e o público não usufrui, não desfruta disso como deveria. Tem gente que mora aqui no entorno e não conhece a biblioteca”, diz a gerente do espaço, com pesar. Na tentativa de reverter esse quadro, ela organiza atividades culturais, esquema de visitas monitoradas com as escolas e atividades lúdicas com agendamento.

“Tudo funciona como atrativo para trazer o público que está lá fora”, ela acredita. E aponta o que seria uma alternativa para a revitalização do espaço: “A criação de uma associação de amigos da biblioteca, com um grupo de pessoas que se unisse para angariar recursos em benefício do espaço, dando um suporte orçamentário. Mas precisamos da mobilização da sociedade civil”, desabafa.

O QUE DIZ A LEI

No último dia 25 de maio,entrou em vigência uma lei que determina que as instituições educacionais públicas e privadas de todos os sistemas de ensino do Brasil deverão ter bibliotecas. As escolas terão um prazo máximo de dez anos para instalarem os acervos de livros,documentos e materiais videográficos.

A determinação prevê um acervo de livros na biblioteca de,no mínimo, um título para cada aluno matriculado, cabendo ao sistema de ensino ampliar este acervo,bem como divulgar orientações de guarda, preservação,organização e funcionamento das bibliotecas escolares. Em abril o Ministério da Cultura revelou que o Pará é o Estado com maior número de municípios sem bibliotecas: dos 143 municípios, 21 não possuem um local reservado para estudo e pesquisa.

Em Belém, só há duas bibliotecas públicas: a Biblioteca Arthur Vianna e a Biblioteca Municipal Avertano Rocha, na orla de Icoaraci.

ACERVO

A biblioteca Arthur Vianna possui cerca de 500 mil volumes e recebe de 9 a 10 mil pessoas por mês, que consultam cerca de 75 mil obras. (Diário do Pará em 14/06/2010)